"O Brasil não pode ser reativo", diz advogada sobre política comercial imposta por Donald Trump

Presidente americano impõe tarifas de 10% ao Brasil e especialista alerta para isolamento dos EUA e fortalecimento da China no cenário comercial

Publicado em 03/04/2025 às 14:44 | Atualizado em 03/04/2025 às 15:39
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Na última quarta-feira (2), o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciou a aplicação de novas tarifas sobre produtos estrangeiros importados pelo país. A medida, que cumpre uma promessa de campanha, estabelece uma taxa básica de 10% para todos os países que não fazem parte do acordo USMCA (Estados Unidos, México e Canadá). Para importadores brasileiros, a nova taxação entra em vigor a partir de 5 de abril.

A decisão, segundo Trump, visa corrigir o que ele considera uma "desvantagem comercial" dos EUA perante outros países. No entanto, especialistas avaliam que a medida pode isolar ainda mais os Estados Unidos do cenário econômico global e fortalecer economias concorrentes, como a China.

Impactos e nova ordem global

A advogada, mestre em Direito Internacional e professora da Fundação Getulio Vargas Roberta Portella analisou as implicações dessa política comercial em entrevista ao programa Passando a Limpo da Rádio Jornal. Para ela, a imposição de tarifas reforça o afastamento dos EUA de relações multilaterais e pode acelerar um novo protagonismo chinês na economia mundial.

“Estamos observando um isolamento efetivo dos Estados Unidos, que se retiram de um contexto multilateral e, contraditoriamente, fortalecem a parte que desejam enfraquecer, que é a China e outros países da Ásia”, explicou a especialista.

Ela também destacou o enfraquecimento da Organização Mundial do Comércio (OMC), que, desde a primeira gestão de Trump, perdeu influência devido ao bloqueio de novos juízes no seu órgão de apelação. Segundo a especialista, isso limita sua capacidade de intervir diretamente em disputas comerciais, levando à intensificação de acordos bilaterais e a uma mudança na geopolítica global.

O Brasil e as novas tarifas

Diante da nova taxação, Portella defende que o Brasil adote uma postura estratégica e evite respostas impulsivas.

“O Brasil precisa agora, com calma, pensar numa estratégia. O Brasil não pode ser reativo. A história da diplomacia brasileira é muito competente, independentemente do governo. A diplomacia brasileira tem um histórico de muita reputação nas relações internacionais de comércio. Penso que recentemente tenha trabalhado de forma bastante competente. Acho que os 10% aplicados pelo governo Trump têm algum fundamento nessas últimas reuniões e encontros com a diplomacia brasileira. Então, o momento é de calma e de buscar nessa experiência diplomática as melhores vias de negociação", ponderou.

Ela ainda ressaltou que, apesar da taxação, o Brasil não está entre os países mais afetados. “Nosso caso não é tão crítico quanto o de nações do Sudeste Asiático, que sofreram impactos muito mais severos. No entanto, é necessário estabelecer limites nessa relação comercial”, concluiu.

A medida adotada pelo governo Trump reafirma a postura protecionista da sua administração e pode redesenhar as relações comerciais internacionais nos próximos meses. Enquanto isso, o Brasil deve observar os desdobramentos e planejar suas próximas movimentações no cenário global.

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